A verificação de idade torna-se a nova controvérsia da Internet
Nos EUA e na UE, a verificação da idade mantém-se, apesar da eliminação de outros elementos controversos. Os críticos receiam que isto coloque sob pressão a privacidade e a identidade digital.

Pontos principais
- Duas grandes leis da Internet nos EUA e na UE foram atenuadas, mas a exigência de verificação obrigatória da idade manteve-se.
- Os críticos alertam que o controlo da idade pode resultar na recolha de dados de identidade, como documentos de identificação ou digitalizações faciais, também para adultos.
- O debate também afeta a Europa e a web3, porque legislação sem um método favorável à privacidade pode levar a mais recolha de dados e a riscos de segurança.
Duas grandes leis da Internet nos EUA e na UE foram esta semana suavizadas num ponto central, mas preservam uma medida que, segundo os críticos, vai muito além da proteção das crianças: a verificação obrigatória da idade. O debate deixa assim de se centrar apenas na moderação de conteúdos e na encriptação e passa a colocar uma questão mais profunda: quanta identificação devem os adultos ceder para continuar a aceder à Internet?
Leis atenuadas, exigência persistente
Em 29 de junho, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou a Kids Internet and Digital Safety Act, numa versão revista da Kids Online Safety Act, enquanto em Bruxelas os negociadores estavam reunidos para aquilo que deveria ser o último trílogo sobre o Chat Control 2.0. Em ambos os processos, os elementos mais polémicos acabaram por ser retirados. Nos EUA, a controversa duty of care foi eliminada e, na UE, a obrigação de análise do lado do cliente das mensagens privadas foi retirada.
Ainda assim, a exigência de verificação da idade manteve-se nos dois dossiês. Para os opositores, é precisamente esta medida que transforma a navegação anónima em navegação identificada, incluindo para adultos. A Online Safety Act britânica mostra a rapidez com que estas regras podem produzir efeitos na prática: o regulador Ofcom já abriu mais de 90 investigações e aplicou coimas a plataformas que não cumprem as regras, enquanto os utilizadores têm de apresentar cada vez mais frequentemente um documento de identificação ou uma digitalização facial para aceder a conteúdos comuns.
Privacidade versus dados de identidade
A crítica central é simples: verificar a idade não tem de significar recolher identidade. Em vez de guardar uma cópia de um passaporte ou uma digitalização facial, as plataformas também podem recorrer a técnicas de preservação da privacidade, como as zero-knowledge proofs. Com estas, uma pessoa pode provar que tem mais de 18 ou 13 anos sem revelar o nome, a data de nascimento ou um documento.
Esta distinção é relevante porque muita legislação exige o resultado, ou seja, a verificação da idade, mas não define de que forma essa verificação deve ser feita de modo favorável à privacidade. Isso abre espaço para a solução mais simples: o carregamento de dados de identidade ou uma verificação biométrica. Para as plataformas, isso significa não só mais conformidade, mas também um volume maior de dados sensíveis que tem de ser protegido, com todos os riscos de fugas de dados, subpoenas e utilização indevida que daí decorrem.
Porque é que isto também afeta a Europa
Para os utilizadores europeus de criptomoedas e web3, este debate é relevante porque a mesma lógica também pode estender-se à identidade digital, às wallets e ao acesso a serviços online. Se os legisladores impuserem apenas o resultado final e não o método, a privacidade desde a conceção pode, na prática, ser substituída por sistemas que recolhem mais dados do que o necessário. Isso afeta não só as plataformas sociais, mas também a infraestrutura mais ampla em que o acesso e a verificação digitais assentam cada vez mais.
O momento torna a questão ainda mais sensível. A KIDS Act segue agora para o Senado, enquanto o Chat Control 2.0 tenta alcançar um acordo político em julho. A questão já não é apenas se as plataformas devem poder verificar a idade, mas se isso será feito com o mínimo de dados ou com um novo padrão para o armazenamento de identidade. Numa Internet que também tem de distinguir cada vez mais agentes de IA de seres humanos, essa escolha pode ir muito além destas duas leis.