Hack à Coldcard coloca a self-custody de Bitcoin sob pressão
Uma falha de firmware de 2021 afetou milhares de wallets Coldcard e levou a um roubo de quase 1.600 BTC. O caso coloca as hardware wallets e o multisig como solução de self-custody ainda mais em destaque.

Pontos principais
- Uma falha de firmware nas hardware wallets Coldcard, de 2021, esteve na origem de um dos mais relevantes incidentes de segurança recentes ligados à self-custody de Bitcoin.
- Os atacantes conseguiram retirar quase 1.600 BTC, avaliados em mais de 100 milhões de dólares, de cerca de 7.300 endereços.
- O setor respondeu com correções, comunicação às autoridades de investigação e maior atenção a modelos de segurança em várias camadas, como o multisig.
Uma falha de firmware com cinco anos nas wallets hardware Coldcard deu origem a um dos mais graves incidentes de segurança recentes no universo da self-custody de Bitcoin. Segundo a Galaxy Research, os atacantes começaram na passada quinta-feira a esvaziar milhares de wallets e conseguiram retirar quase 1.600 BTC, no valor de mais de 100 milhões de dólares (86,6 milhões de euros), de cerca de 7.300 endereços.
Como o ataque funcionou
A vulnerabilidade estava numa atualização de firmware lançada em março de 2021 para a wallet apenas de Bitcoin da Coinkite. Na prática, isso deixou as chaves privadas menos protegidas do que os utilizadores julgavam. O ataque desenrolou-se em três vagas e atingiu sobretudo pessoas que acreditavam estar a manter os seus fundos sob controlo direto e em segurança.
A Swan Bitcoin, plataforma norte-americana para comprar, guardar e gerir Bitcoin de forma autónoma, reagiu de imediato com medidas adicionais. A empresa suspendeu os levantamentos para clientes em risco, enviou alertas na aplicação e alargou o apoio à migração para lá da sua própria base de clientes. O diretor executivo, Cory Klippsten, afirmou que a equipa deixou tudo para trás para telefonar aos clientes e que, mais tarde, também prestou apoio a qualquer pessoa que precisasse de assistência.
Reação do setor
Uma semana depois, quase 90% das moedas roubadas continuam paradas na blockchain. Os endereços confirmados do atacante foram partilhados com a americana polícia federal, enquanto a Coinkite corrigiu todas as linhas de dispositivos afetadas. Uma equipa voluntária financiada pela OpenSats analisou mais de 150 repositórios open-source e não encontrou sinais de que o problema se tivesse alastrado para além da Coldcard.
A Coldcard é há muito conhecida como uma hardware wallet apenas de Bitcoin, com funcionalidades pensadas para reforçar a segurança, como transações air-gapped através de microSD e uma caixa transparente para tornar visível qualquer manipulação física. Isso torna o impacto deste exploit ainda mais significativo, porque o incidente atinge precisamente uma categoria de produto assente na confiança na segurança local.
Porque é relevante
O hack reacendeu o debate sobre a self-custody, mas, segundo Klippsten, os utilizadores não estão a recuar em massa. Em vez disso, procuram cada vez mais formas de tornar o seu Bitcoin mais difícil de comprometer através de um único ponto de falha, por exemplo com collaborative multisig. Isto pode ser relevante para os utilizadores europeus de criptomoedas, porque mostra que, na prática, a segurança depende cada vez mais de várias camadas e não apenas de uma hardware wallet.
Uma parte do mercado já tinha reagido ao exploit com maior prudência: wallets antigas começaram a mover-se em massa depois de a vulnerabilidade se tornar conhecida, como em uma wallet antiga de Bitcoin que transferiu 31 milhões de dólares.