FCA abre regras para criptomoedas ao comércio global, mas as dúvidas persistem
A FCA opta por um modelo que deve ligar exchanges estrangeiras e stablecoins com liquidez global. Mas as licenças, a avaliação AML e a delimitação face ao MiCA continuam incertas.

Pontos principais
- A FCA britânica apresentou novas regras para criptomoedas que devem preservar a liquidez global e a circulação de stablecoins não britânicas.
- As exchanges de criptomoedas estrangeiras podem servir clientes britânicos através de sucursais autorizadas localmente, mas têm primeiro de obter autorização da FCA.
- Os participantes do mercado veem oportunidades para Londres como centro de criptomoedas, mas duvidam da rapidez e da previsibilidade da concessão de licenças.
A autoridade de supervisão britânica, FCA, apresentou esta semana o seu novo enquadramento para criptomoedas. No mercado, a leitura dominante é a de que estas regras podem preservar a liquidez global e permitir a circulação de stablecoins não britânicas. A receção inicial é favorável, mas mantém-se a dúvida sobre se o Reino Unido conseguirá aplicar o regime com a rapidez e a previsibilidade necessárias para se afirmar, na prática, como um centro internacional de criptomoedas.
Liquidez global no centro
No centro da proposta está a possibilidade de as exchanges de criptomoedas estrangeiras servirem clientes britânicos através de sucursais autorizadas localmente, sem perderem a ligação à infraestrutura internacional de negociação já existente. A FCA procura, assim, evitar que a atividade fique confinada a um conjunto fechado de liquidez britânica, algo que os defensores desta abordagem consideram mais favorável à formação de preços e aos resultados para os clientes.
Esta opção contrasta com o MiCA na União Europeia, que, segundo vários participantes do mercado, dá maior peso a operações europeias delimitadas e à liquidez. Para as empresas de criptomoedas com presença internacional, a diferença é relevante: a FCA parece ter escolhido deliberadamente um modelo que interfere menos nas estruturas de mercado transfronteiriças.
As novas regras não se limitam, porém, à negociação. A FCA definiu também um quadro para requisitos prudenciais, regras de conduta e integridade do mercado, bem como disposições específicas para emissores de stablecoins. No caso de atividades como negociação, custódia, intermediação e staking, as empresas terão primeiro de obter autorização da FCA antes de o regime entrar em vigor em 25 de outubro de 2027.
A licença continua a ser o maior obstáculo
Ainda assim, o percurso até à aprovação está longe de ser simples. Juristas e participantes do mercado alertam que o processo de autorização será exigente, em parte porque a FCA ainda não esclareceu quais as jurisdições estrangeiras que contam exatamente como suficientemente comparáveis em matéria de supervisão e proteção.
Na prática, isto cria um problema para as empresas que já têm de definir o seu modelo de negócio. Sem saber quais os mercados elegíveis, torna-se difícil fixar atempadamente capital, pessoal e a estrutura de conformidade.
A isto junta-se o historial rigoroso da FCA nas inscrições AML, com mais de 85% dos pedidos a serem rejeitados ou retirados. O novo regime vai mais longe e inclui também o Consumer Duty, requisitos de capital, resiliência operacional e responsabilidade da gestão de topo.
O que isto significa para a Europa
Para os seguidores europeus das criptomoedas, o ponto mais relevante é que Londres se posiciona como uma alternativa pragmática ao quadro MiCA. As regras britânicas também se destinam a abranger atividades materiais orientadas para o Reino Unido, mesmo quando a empresa está sediada fora do país. Isto pode ser importante para plataformas internacionais que tenham de reorganizar a sua estrutura europeia.
A DeFi continua igualmente a ser um dossiê em aberto. A FCA parece querer adotar uma abordagem diferenciada em relação a estruturas verdadeiramente descentralizadas, enquanto os intermediários centrais continuam, na prática, no radar das novas regras. Para os intervenientes institucionais, esta distinção é relevante, porque precisam precisamente de clareza jurídica e de governação antes de a infraestrutura blockchain poder ser utilizada de forma mais ampla nos sistemas financeiros tradicionais.
A orientação britânica insere-se numa tendência internacional mais ampla, na qual os reguladores dão maior ênfase à clareza jurídica em torno dos ativos digitais. Nos EUA, esse debate também se coloca, por exemplo, em torno da clareza jurídica para ativos tokenizados, onde a questão central é saber que regras se aplicam à propriedade, à liquidação e à supervisão.